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Sindicato Independente dos Médicos

Amadora Sintra: mais do que escândalo, um crime

10 novembro 2014

A situação que se vive no Serviço de Imagiologia do Hospital Prof. Dr. Fernando Fonseca, E.P.E. (HFF) - Amadora Sintra, é um perfeito escândalo pelo prejuízo e dano causado a doentes, ao erário público, ao Serviço Nacional de Saúde e aos que neles pensam poder confiar.

A denúncia do SIM relativamente à situação da urgência noturna de radiologia em regime de chamada foi resolvida, mas isto foi apenas para “tapar o sol com a peneira”, pois toda a estrutura do hospital está a ruir perante uma falsa imagem de fachada de um EPE bem-sucedido numa qualquer gestão economicista.

Não é só a situação das colonoscopias com largos meses de atraso por falta de profissionais, como também a  notícia do tribunal de contas face ao modelo de gestão do HFF que alertam para uma situação gravosa.

A situação que se vive no Serviço de Imagiologia configura crime. O Sindicato Independente dos Médicos não pode deixar de fazer a denúncia pública e formalmente dar conta das situações que lhe vão chegando ao conhecimento ao Sr. Ministro da Saúde e à Ordem dos Médicos, confiando que a Comunicação Social dela faça eco.

A descrição que se segue baseia-se num grito de alma de um médico radiologista de intervenção que, cansado de remar contra a maré, emigrou para Inglaterra onde o seu trabalho é valorizado, acarinhado e remunerado. Referência pormenorizada a situações específicas constam de participação ao Sr. Ministro da Saúde e à Ordem dos Médicos.

O HFF sempre foi um hospital polémico, fruto de ter sido a primeira aventura de parceria público-privada no sector da saúde, mas sempre foi reconhecido pela sua qualidade nos cuidados de saúde e nos profissionais que lá trabalham, desde o primeiro dia de atividade. Muita coisa se mantêm desde o dia da sua inauguração. 

No serviço de Imagiologia/Radiologia os equipamentos são os mesmos de há quase 15 anos… para quase todas as modalidades imagiológicas!

De facto existe apenas um aparelho de TC que apenas tem capacidade de 4 cortes (na atualidade, mesmo hospitais como o de Leiria ou o de Castelo Branco que servem menor número populacional, têm 16 ou 64 cortes. Não mencionando que um hospital para atingir a maior acuidade diagnóstica já teria de estar a funcionar de 64 a 320 cortes). Este equipamento de TC trabalha praticamente 24h/24h em 7 dias por semana, pois para o corpo de gestores do hospital, este aparelho e os doentes são algo metaforicamente semelhante a sardinhas a entrar em lata. É apenas carregar no botão e realizar entre 60 a 90 TC por dia, sem saber a que qualidade ou com que tempo o médico radiologista os irá analisar, enquadrar clínica e laboratorialmente e disponibilizar o relatório com um suposto diagnóstico. Portanto o aparelho nem durante a noite descansa, pois existe a neurorradiologia em telemedicina e a radiologia de corpo em chamada.

Portanto não admira assim que ele só pare quando está avariado, e como qualquer aparelho em recta final de “vida”, tem avariado uma vez de mês a mês até ao dia da “sepsis” final.

O equipamento de RMN de 1.0T, que também já foi bom há 10 anos, atualmente já não apresenta qualidade aceitável para grande parte dos exames pedidos internamente. Por exemplo, até já se chega ao ponto de grande parte dos exames de RMN serem enviados para serem realizados em hospitais privados, pois ou o aparelho do HFF não permite tecnicamente faze-lo ou não tem as peças necessárias à realização do exame… Portanto como o hospital não investiu, os exames passaram a ser realizados pelos grupos que lucram com a ineficiência/insuficiência do SNS.

Para continuar o teatro dramático dos “eletrodomésticos da radiologia”, a sala de angiografia é dotada igualmente de um aparelho já sábio de tanta idade, mas já totalmente desadequado face à qualidade da imagem diagnóstica e níveis de radiação que o aparelho emite. Frequentemente os últimos exames de cada turno de angiografia têm de ser interrompidos ou reprogramados, pois o aparelho atinge sobreaquecimento.

Adjunto a esta sala está inerente a ausência e grande dificuldade na obtenção de materiais (i.e. catéteres, balões, stents) deitando assim por terra o grande trunfo da radiologia enquanto intervenção e terapêutica minimamente invasiva.

Em termos de ecógrafos, estes têm sido substituídos/repostos. Em tempos havia 6, agora há apenas 4 e um ecógrafo portátil, conseguido a custo e depois de um longo processo.

A morosidade na reposição do equipamento é um problema crónico do hospital. Como o hospital optou por não manter os contratos de manutenção do equipamento, sempre teve que gastar mais dinheiro com o seu arranjo. 

Veja-se o ridículo exemplo de quando o mamótomo avariou, numa altura em que o revendedor já tinha informado que a manutenção do mesmo, pela sua idade, já não era assegurada. Assim, o hospital ficou sem o seu único mamótomo durante cerca de 3 meses, até que, por caricato que pareça, se encontrou um cabo perdido num hospital distrital qualquer, e em vez  de ser instalado um novo equipamento,  ressuscitou-se o pobre antigo que já deveria ter sido substituído há muito.

Mas o ridículo da situação chega quando se analisam as estações de trabalho. Não existem computadores suficientes no serviço para que os radiologistas que estão escalados num determinado período possam trabalhar. 

Eles são obrigados a ir trabalhar para os computadores que estão nas salas de ecografias, onde médicos estão a fazer exames em simultâneo, para poderem ter os relatórios validados a tempo. Nem se arriscam a levantar da cadeira porque quando voltarem os computadores já foram ocupados por médicos com o mesmo problema. 

As estações de trabalho estão dotadas com monitores de alta resolução com capacidade diagnóstica ligados a computadores que perderam a ligação aos PACS ou que simplesmente não ligam (ou se recusam a desligar). O número do gabinete de informática está no speed-dial de qualquer radiologista, dada a frequência de problemas de rede ou à procura de relatórios de urgência que foram validados mas que não chegam a estar disponíveis aos colegas da urgência.

Neste enquadramento da ausência de ferramentas de trabalho, (da qual os computadores e as estações informáticas fazem parte obrigatória e sem alternativa na dinâmica do dia-a-dia do radiologista), é triste ver os internos a ‘zanzarem’ pelo serviço à procura de computadores onde possam fazer ou corrigir o seu trabalho. 

É triste ver a formação destes internos prejudicada, principalmente num serviço que já foi muito bom em atividade científica e de formação médica, e hoje se encontra reduzido ao esforço dos radiologistas mais velhos, entre os quais a diretora, que tem sido incansável no desgastante e inglório exercício de defender o serviço; e à pro-atividade de um ou outro interno mais ativo e que não se rende ao naufrágio deste navio.

O desânimo é tal que, em tom de brincadeira, com aquele sorriso de quem já nem acredita que não seja mesmo a verdade, se ouvem as pessoas a dizer que a única coisa que funciona no hospital são os equipamentos de controlo biométrico. Ora se a única coisa que funciona é o registo de ponto e, em verdade, é a única coisa que parece efetivamente ser avaliada no nosso trabalho, muitos sentem que é essa a principal expectativa do nosso trabalho. Isto, para além de ser a maior perversão do que é o funcionalismo público, parte também do princípio errado que pelo menos isso funciona.

A unidade de neurorradiologia, que já teve em tempos a capacidade de realizar procedimentos de intervenção, viu sair a maior parte dos colegas do hospital. Neste momento existe apenas uma neurorradiologista no serviço. Os internos foram realocados noutros hospitais e o HFF perdeu a sua capacidade formativa nessa especialidade.

Desde o verão, o próprio serviço de radiologia já perdeu dois especialistas de radiologia e irá perder mais dois até ao final do ano. Já antes e desde o início do ano, tinham sido terminados os contratos com dois outros colegas, com diferenciação em radiologia de intervenção. Não existem soluções internas para assegurar o trabalho que era realizado na radiologia de intervenção e já nem sequer nos é permitido fazer radiologia de intervenção de urgência.

Os custos para o SNS e para os contribuintes com os cuidados de saúde por ex.º a um doente amputado são exorbitantes mas já não interessam ao hospital, apesar de deverem ser preocupação para todos os que pagam impostos. No entanto, o tipo de cuidados que oferecemos aos nossos utentes são do interesse da classe médica, pelo próprio juramento de Hipócrates, e neste caso estão claramente condicionados pela desorganização interna do hospital. A radiologia de intervenção atempada permitiria o recurso a uma amputação…

Foi definida pelos médicos uma lista de material mínimo que deveria existir em stock, e que lhes permitisse fazer procedimentos emergentes como embolizações no caso de hemorragias internas agudas, ou angioplastia nos casos de isquemia aguda, e esta lista nunca foi aceite. 

Como os médicos são insistentes, tornam-se rapidamente inconvenientes, sempre defendendo a possibilidade de eventualmente se poderem fazer estes procedimentos fora de horas se medicamente fossem considerados emergentes. 

Como consequência, o gestor passou a reunir apenas com o enfermeiro, sem a presença de nenhum médico (!) e os dois definiram quais os procedimentos  que o serviço de radiologia poderia oferecer.

Como a “verdade vem sempre à tona”, esta realidade tornou-se evidente pois como o gestor da radiologia não sabe os procedimentos que são disponibilizados aos utentes teve que perguntar a alguém.

Claramente não foi aos médicos que os realizam e nem sequer à diretora do serviço onde são realizados… mas ao enfermeiro que julga que sabe, mas que depois mete os ‘pés pelas mãos’ e confunde procedimentos e materiais. Foi então assim a responder a uma série de dúvidas deste enfermeiro que se descobriu que o gestor se apoiou neste elemento em exclusivo para definir quais os procedimentos que o serviço deveria realizar e os materiais essenciais.

Das várias reuniões dir-se-ia que foram cópia umas das outras; os mesmos problemas foram identificados, as mesmas soluções foram propostas e nada foi feito. 

Nestes últimos dois anos foi decidido (pela responsabilidade do gestor) que os procedimentos de intervenção teriam de terminar até às 20h, porque o hospital não iria autorizar que se ultrapassasse os horários dos enfermeiros nem pagar horas extraordinárias. Ora esta decisão veio limitar seriamente a principal vantagem dos procedimentos de intervenção, que é a possibilidade de serem feitos no contexto emergente e potencialmente ‘life-saving’, independentemente das horas a que são realizadas. Foram vários os casos onde doentes com hemorragias agudas e sem condições operatórias ficaram a aguardar durante a noite a fazer transfusões em massa a ver se resistiam o suficiente para chegarem até de manhã para fazer embolização de urgência ou serem recebidos noutros hospitais para fazerem radioterapia hemostática.

Custa-nos ver decisões com tal impacto na morbilidade e mortalidade de doentes seguidos no HFF a serem tomadas por profissionais não médicos com tão pouca preparação, como se pode verificar ao analisar os resultados das sucessivas auditorias aos indicadores de qualidade da atividade do hospital, denotando uma degradação continuada da mesma. Um gestor com uma responsabilidade tão grande deveria saber mais da área médica que gere e ser responsabilizado pelas suas decisões.

O diretor clínico é atualmente uma pessoa muito contestada em todo o hospital, talvez por ser associado à degradação das condições de trabalho, mas também por reconhecida incapacidade de representar os médicos junto do conselho de administração.

A norma é não tratar dos assuntos até que um utente ameace apresentar queixa e quando há essa possibilidade, a gestão e o diretor clínico tentam a todo o custo fazer passar esses utentes à frente dos outros para os calar.

Portanto agora, que é mais do que claro que não há qualquer vontade do hospital em a radiologia de intervenção é que o hospital vai perceber o quanto vai custar enviar estes procedimentos para serem realizados no exterior. Estamos convencidos que eventualmente os serviços clínicos vão ser pressionados para não os pedirem e os que forem enviados para fora vão ter dificuldades em encontrar solução no SNS. Pois  a realidade é que contam-se pelos dedos das mãos o número de radiologistas de intervenção que temos no país. Alguns já saíram para fora de Portugal e os que restam fazem cada vez menos. Os mais novos que se diferenciam nesta área já nem sequer pensam cá ficar e só se arrependem de ter cá escolhido radiologia com vista a intervenção em Portugal.

É uma dura realidade, mas a alternativa óbvia, como no caso dos doentes que foram enviados na altura em que o hospital não tinha radiologistas durante o período da noite para apoio à urgência, será provavelmente o sector privado como o hospital da Luz, que se tem mostrado interessado em assegurar os pedidos de intervenção do HFF. É assim que se desvirtua o sistema, acabando com a resposta do sistema público para que o sistema privado possa prosperar.

Outro dos aspetos que a atual situação do serviço de imagiologia acarreta é relativa à sua acreditação. O serviço é acreditado pela norma ISO-9001, o que, como se pode verificar no site do HFF, implica o cumprimento de uma série de normas. A acreditação deveria ser revalidada durante o passado mês de outubro, mas o hospital pediu o adiamento da mesma até abril (6 meses). Entre as normas pode-se ler que o serviço de radiologia deverá ter uma resposta interna de radiologia de intervenção ao longo das 24h (algo que já não acontece por decisão da gestão ao proibir procedimentos depois das 20h) e que devem estar definidos vias de referenciação para casos excepcionais quando os procedimentos não puderem ser realizados no HFF (algo também inexistente). Para além desta, muitas outras normas estão em incumprimento, nas diversas modalidades para além da radiologia de intervenção. Relembre-se que o HFF foi o primeiro hospital português a ser acreditado mas infelizmente agora  já nem vive da sua glória passada.

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