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Sindicato Independente dos Médicos

A angústia de um médico a fazer Serviço de Urgência

18 setembro 2019
A angústia de um médico a fazer Serviço de Urgência
Nas Redes Sociais há grupos e páginas cuja temática das intervenções é o trabalho dos vários profissionais de Saúde nos nossos Serviços de Urgência.

Uma delas é o "Pérolas da Urgência", do qual reproduzimos uma intervenção que reflecte a realidade nua e crua:

No meio de uma urgência caótica, às quatro da manhã, rodeado de doentes em choque séptico, familiares completamente descompensados e colegas mais novos que pedem autorização para prescrever um paracetamol (e bem!), dou por mim a pensar:

"É mesmo isto que eu quero para a minha vida?"

Dou por mim a afogar-me no meio de um sistema viciado, corrompido, que serve apenas para servir os interesses de alguns, alguns esses que, por sinal, não incluem nem os doentes nem a maior parte dos profissionais que nele trabalham. Dou por mim a olhar à minha volta e a ver uma instituição moribunda, repleta de quintas, onde cada um se esforça acima de tudo para proteger a sua própria propriedade, desprovido de qualquer tipo de interesse em fazer com que as coisas mudem para melhor. Dou por mim envolvido numa engrenagem na qual são os piores de nós que se destacam. Os mais sacanas, aqueles que passam por cima de mais gente para chegar onde querem, aqueles que querem saber de tudo menos do bem estar dos doentes e utilizam a sua nobre arte para enaltecer o seu próprio ego frágil e alimentar as suas inseguranças. Aqueles que fazem tudo para silenciar os poucos que ainda se insurgem e tentam explicar que é possível fazer com que o Serviço Nacional de Saúde funcione melhor, para todos.

Dou por mim a trabalhar oitenta horas por semana quando poderia trabalhar no privado e ganhar o mesmo em metade do tempo. Dou por mim a ter de justificar a uma família furiosa porque é que a TAC que foi pedida há duas horas ainda não foi realizada quando se há alma que não tem culpa disso sou eu. Dou por mim a pensar que nessas mesmas duas horas, no privado, o doente já tinha feito a TAC e já se encontrava de receita na mão, desfeito em sorrisos e agradecimentos pelo bom tratamento que recebeu na instituição. Dou por mim a procurar infindavelmente doentes que não respondem à chamada e podem estar perdidos por esses corredores do Hospital a fora, simplesmente porque não existe nenhum profissional destacado e capaz de os orientar até ao meu gabinete de observação. Dou por mim a levar com os gritos de um doente com uma cólica renal, por estar há cinco minutos à espera que eu consiga sequer aproximar-me dele sem ser abordado por trinta pessoas que querem saber resultados de análises, onde fica o raio-X, quanto tempo falta para serem atendidos, etc.

Dou por mim a fazer o melhor que sei, que posso e que consigo com as condições que me são oferecidas, em nome dessa nobre criação que é o SNS. Dou por mim a achar que sou masoquista por continuar a achar que o meu futuro continua a ser o SNS, que lá é que se está bem, que não posso abdicar de uma carreira hospitalar, mesmo que não consiga justificar o porquê de achar isso. Dou por mim a olhar para os meus colegas e a ver gente acabada, farta, olheirenta, desmotivada, que se continua a arrastar pelos corredores a tentar fazer com que as coisas vão funcionando. Ou pior do que isso, acomodados. Esses são os piores, os acomodados. Aqueles que acham que está tudo bem, que o SNS tem pequenas falhas como qualquer sistema, mas que é nosso dever aguentar com e corrigir essas mesmas falhas, nem que seja em prejuízo da nossa própria saúde mental ou física. Aqueles que acham que sofrer faz parte da beleza de ser médico. Que abdicar de tempo de qualidade com a família e os poucos amigos são ossos do ofício. Que faz parte. É suposto. Sempre foi assim e, portanto, se eles tiveram de passar por isso nós também temos.

Dou por mim a fazer um paralelismo entre o SNS e o álbum conceptual dos Pink Floyd denominado Animals (por sua vez inspirado na obra de George Orwell, Animal Farm). Nele, a sociedade encontra-se dividida essencialmente em três escalões, ou castas. Os porcos são quem manda. Têm a seu mando as ovelhas, que são aquela franja da população que simplesmente se está nas tintas e não quer saber. Por fim, os cães são quem tenta agitar o sistema e retirar os porcos do poder, apenas para no fim perderem a batalha contra as ovelhas e terem de se retirar para evitar ser chacinados.

Pois bem, amigos e amigas, sinto-me um autêntico cão no SNS. Os poucos de nós que vão persistindo tentam aguentar as investidas dos porcos e das ovelhas até ao dia em que se fartam e abandonam o barco. Ou, neste caso, a quinta.

Começo a achar que chegou a minha hora de os acompanhar. Eu não preciso disto. Não preciso de me sujeitar a estas condições de trabalho que roçam o deplorável. Não preciso de continuar a dar a cara por erros e incompetências que não fui eu que cometi. Não preciso de continuar a ser vilificado por tentar mudar aquilo que acho que está mal, de forma a tornar o SNS um sítio minimamente agradável e motivante para todos, em vez de ser só para alguns. Não preciso de continuar a passar mais tempo no hospital do que em casa para poder almejar a ter um estilo de vida próximo daquele que sonhei ter e para o qual me esforcei. Não preciso de continuar a sentir que devo alguma coisa ao meu país, aos contribuintes ou aos doentes, porque já paguei o que devia. Com juros. Não preciso de me continuar a colocar a mim e aos meus em último lugar. Não preciso de continuar a sair mais tarde do que devia. Não preciso de continuar a fazer as funções de outros para que o sistema funcione. Não preciso de continuar a abdicar do meu bem-estar para que o sistema funcione. Não preciso de continuar a achar que para ser médico é preciso ser infeliz e miserável.

Estou desmotivado. Estou muito desmotivado. Ainda acredito no Serviço Nacional de Saúde. Até quando é que eu não sei.


Fonte: Pérolas da Urgência

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