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Sindicato Independente dos Médicos

Que futuro para os transplantes?

29 agosto 2011

A atividade de transplantação de órgãos tem características únicas e um órgão doado representa uma oportunidade irrepetível de vida. A dádiva de órgãos é altruísta, mesmo depois da morte, e tem molduras éticas e sociais de relevo; a atividade é exercida por equipas multidisciplinares constituídas por técnicos muito especializados e em disponibilidade permanente, também eles altruístas, dado que a possibilidade de transplantar é inesperada (com uma inexplicável tendência para as madrugadas, os domingos e os feriados).

A atividade é dispendiosa, pela sua complexidade, mas os ganhos derivados para a saúde encontram-se, talvez, entre os mais precários. É certo que a vida e, a melhoria da sua qualidade, não terá preço, mas tem custo, e este é suportado por todos nós. É também certo que, no mundo plano e global em que vivemos não será possível deixar de tratar os cidadãos, e tal não seria, mesmo, justo. A necessidade de contenção de custos, o combate incessante ao desperdício e a procura das mais rigorosas relações de benefício-custo não podem, na precária conjuntura atual, deixar de ser, aqui, enfatizadas, constituindo uma obrigação ético-profissional de todos, para assegurar um bem escasso que terá de ser racionalizado mas nunca racionado. Teremos assim que transplantar os nossos cidadãos e não parece possível que tal possa vir a ser feito fora da responsabilidade do Estado, ou seja, noutra alternativa. Fá-lo-emos com acessibilidade, com qualidade e com dádiva e estes são primados do profissionalismo que o pessoal da Saúde bem conhece e pratica.

Teço estas considerações a propósito da muito recente medida que reduz em 50% os incentivos à transplantação, ainda mais com efeitos retroativos, e com regras que tendem a afastar do seu recebimento aqueles que diretamente a praticam, aqueles de cuja disponibilidade e competência ela depende — os profissionais. Será, talvez, inconveniente reclamar honorários num momento de tanta contenção, mas todos entenderão que a disponibilidade dos profissionais (médicos ou não), para a colheita e transplantação, tenderá a dificultar-se, uma vez cortada a única forma de os compensar pela sua disponibilidade permanente. Não ponho em causa a necessidade dos cortes, chamo, antes, a atenção para a necessidade da sua sensibilidade e seletividade. Por exemplo, na prática que dirijo, a da transplantação pulmonar (única, até hoje, no país), teremos poupado ao erário, no ano transato, um milhão de euros pela menor necessidade de recurso ao estrangeiro, onde a transplantação nos custa quase o dobro, para não falar na deslocalização. Este ano atingiríamos a cota da autossuficiência nacional, num crescimento de mais de 175%! Compreende-se o desapontamento das equipas, pela falta de seletividade das medidas que, se não consideraram o esforço despendido, deveriam, pelo menos, ter atendido à sensibilidade da prática. Temo que, dentro em breve, o país possa, de novo, ter de recorrer ao estrangeiro!

A economia dita hoje as regras, também na Saúde, mas tal como dizia Einstein, “nem tudo o que pode ser medido conta, e nem tudo o que conta poderá ser medido”.

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